terça-feira, 23 de março de 2021

Sobre Afeiçoes Religiosas - do Jonathan Edwards


Nunca tinha lido Jonathan Edwards e depois de concluir essa leitura, posso afirmar que é um baita livro. Um clássico que estava há algum tempo na fila de espera na minha estante, aguardando a sua vez e digo que valeu cada minuto. Apesar de ter lido em algumas resenhas que esse livro é muito filosófico e de difícil entendimento, tenho que discordar. 

Antes de lê-lo, é preciso entender o contexto em que o livro foi escrito. Acho válido porque no decorrer da leitura, você pode ter a sensação de que Edwards está sendo um pouco, digamos, presunçoso. Quem ele pensa que é pra dizer o que é do Espirito ou não? Mas o fato é que o livro foi escrito após um período de avivamento na Nova Inglaterra, hoje EUA. Na época, ainda era uma colônia britânica. E Edwards notou que muitos usurparam o papel do Espírito Santo e estavam trazendo manifestações carnais se passando por espirituais. 

Na primeira parte do livro ele enumera várias afeições que aparentemente poderiam ser consideradas comportamentos de um servo de Cristo mas que no fundo eram só vaidade e emoções pessoais. Ilusões de quem vive longe do fluir do Espírito mas que pensa estar fazendo algo que louve à Deus.

Desde manifestações físicas de fervor espiritual (hoje no Brasil seria comparado ao "sapatinho de fogo" que são essas danças estapafúrdias, até o tal do "cair no espírito"), muito tempo de zelo e fervor, muita expressão de louvor (repetições vãs e choro)  e até a utilização de textos das escrituras. Nada disso garante que a experiência espiritual seja legítima ou genuína. 
E apesar de não nos julgarmos dignos de mensurar a manifestação do Espírito ou vivermos em tempos do "não julgueis", Edwards descreve algumas características de que, é sim possível discernirmos se uma obra ou manifestação religiosa é de Deus ou do diabo.

Algumas das principais características é que toda afeição religiosa promovida pelo Espírito são inspirações divinas (meio óbvio né? rsrs.) mas que também geram uma mudança na natureza do cristão. E aqui acho que entra  argumento principal do livro: de que todo aquele que realmente foi alcançado por Cristo, pratica as obras que Cristo praticou. Não fica apenas num discurso pseudo intelectual, cheio de evangeliquês, mas a sua vida é uma expressão exata da natureza de Jesus. Desde o modo de falar até seus atos. 

O discípulo genuíno não busca realizar a obra como um fim em si mesmo, como se fosse algo de natureza legalista. Mas ao contrário: suas obras são um meio de agradar aquele que o alistou e o comprou com seu precioso sangue. Não se trata de fazer algo pra compensar o favor alcançado. Mas fazer o que for necessário para agradar aquele que o amou incondicionalmente. A prática cristã e suas obras fluem não como um propósito de convencer o Senhor de que somos dignos de tal feito, mas uma manifestação de amor e gratidão justamente por nos considerarmos indignos. É algo natural. Aquele que tem uma mente dominada pelo Espírito, não pode fazer outra coisa senão manifestar as obras do Espírito. Mente e corpo aqui caminham juntos. 

Resumindo, Edwards quer dizer em linguagem direta que nem tudo que reluz é ouro. E nossa obrigação como cristão é saber com quem estamos lidando e como discernir se alguém que se diz religioso o é de fato. E se até satanás pode utilizar de passagens bíblicas e comportamentais para ludibriar a igreja (Edwards cita Balaão e a tentação no deserto pra corroborar esse ponto, Paulo chega a dizer que até em anjo de luz o diabo pode se tornar!), devemos sim,  julgar todas as coisas e reter aquelas que são boas. Termos cuidado com pessoas que falam da Bíblia, profetizam, conhecem bem a Palavra, tem manifestações físicas que parecem ser espirituais, mas no fundo é como palha ao vento ou uma casa construída sob a areia. Não resistem ao dia mal nem as provações cotidianas. Na primeira oportunidade, abandonam o evangelho e se rendem à Mamom. 

Devemos estar com nossos olhos e ouvidos espirituais bem atentos para não sermos ludibriados por qualquer vento de doutrina ou afeição que se pareça cristã mas no fundo é só mais uma manifestação carnal desejando reconhecimento e status. 

Que Deus nos livre e nos guarde de nos tornarmos como os fariseus, que por fora exalavam a religiosidade da época, mas por dentro eram sepulcros caiados. Que nossas afeições sejam manifestações sinceras do Espírito. De quem realmente foi alcançado pelo imensurável amor de Cristo.


Soli del gloria

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