quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Reflexões Sobre a Pandemia

Esse texto é apenas um resumo das minhas reflexões sobre o posicionamento de parte da igreja durante a pandemia. Pelo fato de ser cristão, quero demonstrar o meu aprendizado de acordo com a nova perspectiva com a qual passei a enxergar o mundo. Nós costumamos chamar isso de "cosmovisão cristã". 

Vale frisar que não pretendo fazer disso um manual de pequenas virtudes ou apontar erros alheios como se eu fosse melhor ou superior aos outros. Meu único intuito é compartilhar minhas reflexões. Reconheço minha mediocridade (algumas pessoas tem pavor dessa palavra por achar que ela tem o peso maior que o seu significado. Eu fico com a pureza da resposta do dicionário) e sem nenhuma falsa piedade ou modéstia, gosto de me colocar na posição em que o Apóstolo Paulo definiu em 1Tm. 1.15 que diz "fiel é esta palavra e digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal."

Dito isso, passo a enumerar a seguir alguns posicionamentos da igreja que ocorreram durante a pandemia e que me fizeram pensar a respeito da igreja:

A primeira coisa e talvez a que mais foi difundida pelos meus irmãos cristãos, foi que a pandemia e o Corona Vírus era uma sentença divina sob um mundo decaído e pecador. 

Deus estava julgando o mundo e aplicando uma correção à humanidade por não seguirem os seus preceitos. Deus se enfureceu e desceu fogo do céu (na verdade um vírus) para condenar os povos idólatras, avarentos, adúlteros e tudo o mais que não prestam. O Senhor ficou de saco cheio! Não aguentando mais tanta idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias etc. dando um ponto final nisso tudo e enviando um vírus maligno. Basta! De agora em diante esse povo terá que me ouvir e se arrepender dos seus maus caminhos se quiserem viver!

C. S. Lewis tem uma frase célebre que diz "o sofrimento é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo!" Confesso que na atual circunstâncias, essa frase faria muito sentido. Visto que o mundo parece cada vez mais perdido, em que as pessoas estão cada vez mais egocêntricas, vaidosas, donas do próprio nariz, como bem diria Paulo "o destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre... só pensam nas coisas terrenas". Mas apesar de achar que Deus teria toda razão em dizimar a humanidade (eu incluso!), não acho que o Deus da Bíblia, a qual eu sirvo e conheci, seja um sádico. Que tenha prazer em proporcionar dor e que se satisfaça com o sofrimento alheio. 

É bem verdade que séculos atrás, os marcionitas, ou, os de Marcião, acreditavam na existência de dois deuses, o do Velho e o do Novo Testamento. E que o Deus do Velho Testamento, denominado "demiurgo", era o deus da lei, severo e cheio de ira!  Mas logo foi taxado de herético e excomungado. Contra ele, Tertuliano escreveu a célebre obra Contra Marcião, a qual combate esta heresia bizarra. 

O Deus da Bíblia é o mesmo ontem, hoje e eternamente! É o mesmo que disse "haja luz!" e também "está consumado!". É o mesmo que diz "não há um justo sequer! Não há quem entenda ou que busque a Deus!" mas também declara "buscar-me-eis e me encontrareis quando me buscardes de todo vosso coração. Chegai-vos à Deus e Ele chegará a vós outros." É o que criou o homem a sua imagem e semelhança e mesmo depois da queda, vindo a plenitude dos tempos, nos enviou o seu filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Esse mesmo Deus, não nos devendo nenhuma satisfação e nem precisando provar nada a seu respeito, provou o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.

Como chegar a conclusão de que este Deus tem prazer na morte do ímpio e que por pura maldade ou por vaidade suprema, decidiu matar milhões de pessoas por serem pecadoras? Ora, aqueles que estão dentro das Igrejas são mais merecedores de misericórdia dos que estão fora? Dentre os mortos pelo Corona, ninguém dentro da igreja foi atingido? Tivemos que aspergir sangue de animais nas ombreiras das casas como os hebreus no Egito para passarmos incólume pelo vírus? Será que se esqueceram do que disse Jesus sobre aqueles que se julgavam mais justos que os que  foram martirizados por Pilatos ou que sofreram com a queda da torre de Siloé? "Se não vos arrependeres, TODOS de igual modo perecereis!"(grifo meu). 

Essa mania de utilizar alguma tragédia como sentença divina não é de hoje. Mas me deixa perplexo ver os que deveriam utilizar palavra de consolo e refrigério, sejam justamente os que condenam e marcam as vítimas do vírus como pecadores nas mãos de um deus (com d minúsculo mesmo) irado! 

Conhecendo o Deus da Bíblia, chego a conclusão que essa pandemia nada é mais do que o fruto do homem em querer dominar áreas em que não possuem o controle e de uma humanidade cada vez mais negacionista, que prefere viver em trevas do que conhecer a Luz. E que a Igreja de Cristo, deveria olhar mais o próximo com compaixão e graça. Esquecendo dos seus próprios interesses e tentar assistir os enlutados com amor e consolo. Demonstrando que ao contrário do que uma pequena parte dessa mesma Igreja diz, Deus não tem prazer no sofrimento do homem e provou isso enviando seu Filho para que todo aquele que invocar o nome do Senhor seja salvo!

  
As medidas a favor do isolamento social, como a proibição dos cultos, na verdade se tratava de uma perseguição religiosa. 

Uma maneira que o governo encontrou de limitar a pregação do Evangelho e proibir a igreja de Cristo de se reunir com o pretexto de conter a propagação do vírus. Preconceito religioso disfarçado! Uma desculpa esfarrapada que os prefeitos e governadores encontraram pra calar a voz da noiva de Cordeiro! Finalmente a igreja atual estava experimentando o que os cristão do primeiro século tiveram que suportar para anunciar o Evangelho em Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra! e a encheram a boca pra responderem como Pedro e João "julguem se é justo diante de Deus ouvirmos antes os senhores do que a Deus."

Essa hipótese até faria sentido se não fosse um pequeno detalhe: não foi só a igreja que ficou proibida de se reunir, mas todo local que tivesse aglomeração de pessoas, como cinemas, teatros, academias, salões de festas, bares, restaurantes etc. 

Não foram poucos que perderam seus empregos por conta dessa proibição. O tal do "fique em casa!" afetou à todos os que possuíam negócios que dependiam justamente de manter o local cheio. Vários restaurantes tiveram que dispensar seus funcionários por conta das medidas de isolamento e precisaram remodelar seu negócio, investindo no delivery. Casais precisaram rever suas festas matrimoniais. Imagina cancelar seu casamento às vésperas da cerimônia por conta de um vírus? Ter que contatar vários fornecedores, pedir reembolso, avisar aos padrinhos, familiares que aquele momento com o qual você sempre sonhou, terá que ser adiado ou adaptado, sem a presença da grande maioria das pessoas com as quais você esperava que presenciassem esse momento único?

Esses são apenas alguns exemplos daqueles que sofreram pelas medidas restritivas impostas pelas autoridades. Eu mesmo precisei cancelar minha viagem às vésperas do embarque. Por conta de um decreto, consegui remarcar as passagens e a estadia para um período mais à frente. Mas e quem não teve a mesma sorte?  Quem tomou calote ou não conseguiu reembolso? Tem ideia de quantos processos o nosso judiciário tem hoje por conta da pandemia?

Dito isso, sinto desanimar meus "compatriotas" cristãos mas não temos como comparar o momento presente com o que nossos irmãos do primeiro século passaram. Ficou mais do que claro que as medidas restritivas não tinham o único e exclusivo intuito de promover uma perseguição religiosa ou restringir a igreja de se reunir. É óbvio que existiram alguns abusos de ambos os lados; de cidades em que a prefeitura proibiu até mesmos familiares de se reunirem em suas próprias casas(!) Como também, de pastores desobedecendo a ordem civil e continuando a reunir a membresias em igrejas lotadas. Graças à Deus os dois casos foram exceções. Tanto as autoridades quanto as igrejas, entenderam que o caso era grave e buscaram cumprir com suas obrigações: preserva a liberdade religiosa e se preocupar com a integridade do próximo, evitando coloca em risco à vida dos seus familiares e vizinhos.

Terceiro ponto e mais preocupante é que para boa parte dos cristãos, a Igreja física perdeu a relevância.

Este ponto é um pouco mais sensível mas sejamos realistas: muitos dos que se diziam cristãos se aproveitaram da quarentena para não voltar mais aos cultos presenciais. 

Seja  por comodidade, por ter a oportunidade de assistir o culto no conforto do lar, ou por precaução, não colocando em risco a integridade física dos seus familiares,  muitos crentes deixaram de congregar no início da pandemia e nunca mais voltaram, seja para mudar de congregação ou simplesmente, abandonaram a Igreja de vez! No momento atual aqui no Rio, continuamos com um número grande de infectados e nem sinal de vacina para todos, o que complica mais a situação. 

O mais assombroso é que numa consulta breve com alguns amigos, são os mais velhos, os mais vulneráveis e que correm mais risco de vida com a doença que estão mais presentes nos cultos. Não sei dizer se por uma questão de fé ou por terem vivido demais e entregaram suas vidas literalmente nas mãos de Deus. Outra hipótese pode ser a questão de maturidade. Entenderam que ser Igreja é estar juntos, unidos em amor, com os remidos e alcançados pelo sangue do Cordeiro, fazendo parte da Assembleia dos Justos, que não suportam ficar em casa e adorar a Deus através da TV. O fato é que a faixa etária mais evoluída continua frequentado a Igreja como se nada tivesse acontecido. Mesmo com os pastores pedindo para que estes evitem ir à igreja. 

Mas como a Igreja deveria se portar diante de um cenário em que sua relevância é questionada? Diante de rituais e liturgias maçantes, repetitivas e sem criatividade? Em que as preleções exigem um esforço hercúlo para se manter acordado? Que dão mais sono do que estímulo para enfrentar a semana ou os problemas que nos cercam? Onde os louvores são frios e mais hedonistas que cristocêntricos? Onde as orações são em sua grande maioria de petição e não de adoração? Em que os irmãos fazem a igreja mais de um ponto de encontro do que um lugar para prestar culto ao nosso Deus? E como atrair os que estão fora do templo se os de dentro desejam sair?

Penso que o maior problema da Igreja atual está nos púlpitos. Há tempos em que os líderes cristãos estão mais preocupados em administrar a igreja dos seus escritórios do que em elaborar os sermões inspirados pelo Espírito Santo. Parecem mais preocupados em fazer preleções que preenchem o tempo após o louvor do que trazer uma Palavra viva e eficaz, mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, e que penetra até a divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. O perigo é que os bancos refletem o que se ouvem nos púlpitos! Uma pregação sem ardor e fogo do Espírito produzirá uma Igreja sem esse ardor e sem esse fogo. Nos preocupamos tanto em elaborar estratégias para que tanto jovens quanto velhos, tanto homens quanto mulheres, comparecem as nossas reuniões que nos esquecemos o tipo de alimento que iremos oferecer. Buscamos mais entretenimento do que revelação dos céus! E isso cria uma geração que se preocupa mais em números do que qualidade e intimidade com o Deus a que diz servir.

Penso que a os líderes e pastores deveriam se preparar melhor para levar uma Palavra de Vida às suas congregações. Que dessem mais importância a este nobre ofício. Se preocupassem menos em agradar os ouvintes e mais em confrontá-los. O Evangelho verdadeiro não se preocupa com ouvidos sensíveis. É função do pregador expor a Palavra sem acepção e sem medo de julgamentos. O Evangelho exige mudança e compromisso. Não é surpreendente que o período que a Igreja mais declinou e enfrentou problemas foram os períodos em que os exímios pregadores entraram em extinção? Devemos retornar com a prática da pregação expositiva e inspirada pelo Espírito. Não apenas preencher o vazio da liturgia mas o vazio da alma! Não apenas atrair os que estão fora mas estimular e alimentar os que estão dentro. Inspirá-los e mostrá-los o quão maravilhoso é servir e seguir a esse Deus e que não há trabalho mais desafiante do que ser um embaixador do Reino!

Que o Senhor nos ajude nessa tarefa árdua mas gratificante. E que nos dará um galardão tremendo no momento oportuno. Mas que nossa motivação maior seja o amor.

Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos ameis. 


Soli Deo gloria 

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